21/12/2011

Onde está Harry Potter?

Há alguns meses parei de escrever colunas sobre Harry Potter para o site Potterish. Hoje adicionei a última, "Onde está Harry Potter?", à página deste blog dedicada a elas, que pode ser acessada por aqui. Se você é fã  de alguém ou de alguma coisa, vai identificar no texto algo que provavelmente acontece com você: um estranho fenômeno ocular que faz com que você veja o objeto de sua admiração/obsessão em qualquer parte. Sim, se você gosta de Harry Potter do fundo da sua alma, para você, Harry Potter está em todos os cantos.

16/08/2011

O Silmarillion, de J.R.R. Tolkien

       No episódio anterior, vimos como J.R.R. Tolkien foi versátil em suas obras, criando duas histórias – "O Hobbit" e "O Senhor dos Anéis" – que se passam no mesmo mundo e apresentam alguns personagens em comum (Gandalf e Bilbo, especificamente, e anões e elfos, em geral), mas que são apresentadas com um estilo de escrita diferente. A consequência disso é que encontramos mais leveza em "O Hobbit" (o que não significa que sejam excluídos da história situações de perigo ou motivos para reflexão, por exemplo) e mais seriedade e grandiosidade em "O Senhor dos Anéis", o que caracteriza essa obra como um épico. 
      Com a constatação de tais semelhanças e diferenças entre  "O Hobbit" e "O Senhor dos Anéis", seria de se esperar pouca surpresa caso "O Silmarillion" mostrasse outra faceta de Tolkien. Mas o fato é que a surpresa foi grande. Talvez porque minha leitura de "O Senhor dos Anéis" já esteja se perdendo nas sombras da memória (como um narrador de Tolkien seria capaz de dizer), "O Silmarillion" revelou aspectos inesperados sobre o mundo que conheci há tempos com a saga do anel.
      Um desses aspectos é o caráter dos elfos. Ao ler "O Senhor dos Anéis", talvez eu tenha idealizado demais a sabedoria desses seres, a qual acabei colocando em questão depois de algumas passagens de "O Hobbit". Pois é justamente a falta de sabedoria dos primeiros elfos (sobretudo dos noldor) que faz de "O Silmarillion" uma obra trágica.
      Explico: o livro começa pelo relato da criação do mundo por Ilúvatar (Deus) e de Arda (a Terra) pelos Valar (deuses que surgem da mente de Ilúvatar e, portanto, inferiores a ele), entre os quais está o maligno Melkor, mais conhecido como Morgoth. Ilúvatar também cria os elfos e os homens, que aparecem em Arda tempos depois de os Valar a transformarem em um lugar habitável. Acontece que, antes de haver Sol e Lua, a terra dos Valar era iluminada por duas árvores. Ao seguirem esses deuses até a morada deles, no oeste, os elfos adquirem muitos conhecimentos e habilidades, de modo que o impulsivo e talentoso Feänor, filho de um dos reis élficos, torna-se capaz de confeccionar joias, chamadas Silmarils, dentro das quais abriga um pouco da luz das árvores. Tudo continuaria relativamente bem se Melkor, o deus do mal, cheio de inveja, não resolvesse atacar a terra dos Valar e destruir as duas árvores que a iluminavam. Os deuses, então, reivindicam as Silmarils, cuja luz foi criada por eles, mas Feänor se nega a entregá-las, pois ele é que tivera e concretizara a ideia de guardar a luz nas joias.
      Assim, pela manifestação do egoísmo e do orgulho, surge o primeiro sinal da falta de sabedoria do elfos. E tudo se complica quando Melkor rouba as Silmarils, levando Feänor a fazer o juramento de recuperá-las e impedir que pertençam a qualquer um que não seja de sua família. Por causa desse juramento, ele e seu povo, que a essa altura está bastante dividido, saem da terra dos Valar rumo ao leste, para a Terra-Média, com o objetivo de enfrentar Melkor e recuperar as joias, apesar de todos os avisos que lhes são dados. A partir de então, o juramento se transforma em uma maldição que condena gerações sem conta de elfos e homens a tragédias que envolvem torturas (como ficar pendurado em um penhasco, ser obrigado a assistir a todos os sofrimentos de sua família sem poder fazer nada, ver seus companheiros serem devorados por lobos à espera da sua vez etc.), incesto, sequestro e fratricídio. 
      Em boa parte, é por toda essa crueldade que mancha as primeiras eras da Terra-Média, sem trégua, que "O Silmarillion" é tão impressionante. Mas há muitos outros fatores, é claro.

Os outros fatores

    “O Silmarillion” pode ser comparado, no começo, a um livro de mitologia (inventada por uma pessoa só – Tolkien) ou à Bíblia, já que narra o surgimento do mundo e a criação dos seres que o habitam. Essa referência à Bíblia reside inclusive no uso excessivo da conjunção “e”. Mas depois os deuses ficam de lado, exceto Morgoth, que não se cansa de atormentar homens e elfos. E essa omissão dos deuses chega a ser irritante: afinal, os elfos podem até merecer a falta de ajuda divina para aliviar seus sofrimentos, mas os homens não. Só que a falta de compaixão dos Valar até tem uma justificativa, que segue uma lógica de “passa e repassa”: é que não foram os Valar quem criou homens e elfos, e sim Ilúvatar; mas Ilúvatar está além do mundo, em esferas superiores, de modo que Arda é preocupação dos Valar. Assim, homens e elfos se dão mal porque o responsável por eles está em outra dimensão, o que o transforma em um verdadeiro pai ausente. Porém, isso provavelmente se explica pela certeza de Ilúvatar de que tudo o que acontece cumpre, no fim, de um jeito ou de outro, os objetivos dele. Junte-se a isso o fato de que os Valar só se mexem para defender os homens quando aparece alguém disposto a correr grandes perigos para lhes pedir ajuda e logo percebe-se mais uma vez o caráter bíblico da obra.
      Outra questão interessante é a abordagem do tema morte. Concebida por Ilúvatar como a dádiva a ser dada aos homens, a morte se torna motivo de medo e maldade entre os humanos. Há, porém, alguns poucos que a escolhem, entre os quais estão Beren e Lúthien, já conhecidos por quem leu “O Senhor dos Anéis” e cuja história remete ao mito de Orfeu e Eurídice e ao conto de Rapunzel.
            Por fim, também merecem destaque o episódio em que o Vala Aulë cria os anões, o mais bem humorado de toda a obra e bastante esclarecedor quanto à menor importância que esses seres têm na história; a importância que Tolkien dá aos nomes, de modo que nenhuma espada ou pedra de Arda possa reclamar de não ter ganhado um, o que exigiu que, no final do livro, houvesse um glossário de 48 páginas; o capítulo dedicado à pura descrição geográfica da Terra-Média do início dos tempos, na qual acabei me perdendo incontáveis vezes, apesar dos mapas nas últimas páginas; e a força e a coragem atribuídas a personagens femininas, não muito presentes em “O Senhor dos Anéis” e completamente ausentes em “O Hobbit”.
            Ainda resta muita coisa para discutir sobre a obra de Tolkien, pois sua imaginação é realmente assombrosa. Contudo, se for para definir algo como a “mensagem” de “O Silmarillion”, um único tema que fundamenta toda a história, eu diria que a narrativa trata dos estragos causados pelo apego.

Ilustrações de Ted Nasmith